Distopia — Ato IV — Uma pequena vitória

Escutei disparos, o som me colocou em alerta, despertando da minha semi inconsciência. Sabia que ela tinha caído, seria impossível estar no mesmo nível do terraço para disparar na minha direção de forma tão rápida e frontalmente. Me deparando com tanta dor que até mesmo me manter em pé era uma batalha árdua, dor pulsando por todo corpo  MALDITO CHOQUE   Demorei para me recuperar do estranho curto circuito que sofri, ele feriu meus  músculos  e meu orgulho, remoí aquele momento por mais tempo que gostaria, até ser capaz de superar o acontecido, me agachei observando ao meu redor, notei de onde vinham os tiros, pela primeira vez estava ferrado literalmente. De repente escutei um barulho estranho e pesado, não era comum, água? Sim, era água. Olhei para trás e notei um grande reservatório furado e bem danificado por causa dos disparos, ele não suportou  a pressão da água e cedeu estourando com extrema violência. A explosão ecoou, litros de água são uma força devastadora, nada resiste  e seu avanço é implacável, as ondas torrenciais vindas de todas direções convergem para  onde estou.

A torrente diluvial surgiu impetuosa em todas as direções, num lapso de memória lembrei por onde tinha subido até ali, não daria tempo para descer, mas poderia me agarrar neste detalhe, assim corri o mais rápido que pude, no desespero crescente,  mesmo sentido as dores e o pavor dos sangrentos que os tiros ssdeixaram, somente a angustia da minha incapacidade encheu o peito, me desgastando. As manchas vermelhas deixadas para trás insistiam em lembrar minha limitação física.

Antes que a força da água pudesse me jogar longe, cai na escadaria lateral do prédio que dava acesso ao terraço, evitava ser lançado pela correnteza, porém aquela escadaria era velha demais e estava enferrujada, ela cedeu em uma das bases devido ao meu peso e inclinou, despenquei mais alguns metros caindo em cima de uma caçamba velha de lixo, girando e atingindo o solo sujo e molhado de outro beco na sequência. Minha armadura hi tech negra apesar de desativada estava quase intacta se não fosse  alguns arranhões e  furos de balas, já minha máscara que simula a aparência de um louva-deus, estava danificada cobrindo só metade do rosto exposto, o visor carmesim estilhaçado. Lavado pelas gotas que despencavam do alto a água levava embora o sangue da face e das feridas dos projeteis, jogado na calçada como uma peça quebrada disparei o olhar para o céu chuvoso.

A visão ficou turva.

Ficou difícil puxar o ar. Quebrei alguma costela… Pernas, um braço… Talvez um órgão deslocado…

Não deu para pronunciar algo, estava derrotado.

Não estava mais em condições, à batalha estava perdida.

 

 

 

 

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“(…) Foi quando perdi meu rumo é que tudo passou a fazer sentido...”

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Só pensando com mais frieza percebi que aquilo não foi desastroso, por um minuto inteiro me mantive imóvel incrédula do que havia acontecido, foi a primeira coisa que deu certo a noite inteira, e nem foi planejado!  Com uma curiosidade quase infantil  me dirigi até o parapeito do prédio inclinando o corpo para frente afim de assistir melhor a cena. Na olhadela vislumbrei o fracasso dele em um entulho de lixo e um sorriso estampou meus lábios. Euforia foi pouco para definir o que senti. Saboreei de longe por alguns minutos, curtindo a vitória, derrubei um homem treinado sem usar de toda minha capacidade, imagine o que poderei fazer quando dominar por completo todas funções dos implantes cibernéticos? Essas habilidades são incríveis! A excitação percorre cada uma de minhas fibras. Mas a vida, como na maioria das vezes não oferece as coisas de mãos beijadas para mim, meus movimentos ainda não fluíam perfeitamente bem, nem como ordenei na hora. Demorei muito tempo da ponta do parapeito até a porta de acesso a saída o terraço, mais tempo ainda gastei atravessando os corredores e descendo escadarias.

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Analisando minha vitoria agora de uma maneira bem mais analítica quando a euforia passou, vi como eu me arrastava apoiada pelas portas do andar inteiro, conclui que nunca  teria vencido alguém assim em condições tão debeis. Os méritos não foram totalmente meus, desta vez não dependi muito dos movimentos, mas sim das pistolas –  graças a Deus, encontrei elas nos bolsos do casaco de alguém  –  e tive uma “pequena” ajuda da caixa d’água, mas nem sempre será assim. Todavia aquilo não me frustrou, mas abriu minha mente, eu precisava melhorar, E VOU MELHORAR!!!  Caso contrario não viverei muito nesse ramo. Agradeci pela sorte do acaso, evidentemente, e me coloquei de volta ao meu lugar. O caminho de  corredores longos e infinitas portas de aparatamento em passos lentos foi tortuoso e dolorido, tudo estalava ou fazia um barulho  estranho. Finalmente  atingia o térreo e encontrando-me de frente ao lobby de saída empurrei com as extremidades dos canos das pistolas o metal desgastado da truculenta porta enferrujada que rangeu feito um lamento. Nenhum sinal de Roy, que bom, ele havia de fato seguido minha sugestão. Também não havia sinal de nenhuma outra pessoa além de mim, em noites assim, de tiros e muita violência   – o que não é raro  – os residentes fortalecem a segurança trancafiando-se em seus apartamentos, não colocam nem a ponta do nariz para fora. De maneira poética na rua o vento uivava ao silêncio espectral do final da madrugada e a tempestade encharcava ainda mais o sobretudo tonando-o pesado.

Empunhando o par de armas para frente, fui lentamente  até o o centro da “piscina” de água não escoada pela sujeira da rua e lá estava ele, meu agressor. Não esboçou nenhuma reação quando me aproximei , toda cautela era pouca, cutuquei o peito com a pistola esquerda duas vezes, não respondeu, estava inerte.

—— Hmmm…  Parece um tanto calado para quem pretendia fazer um interrogatório. Agora é você quem vai responder algumas perguntas, claro… Quando acordar… – Cutucou outra vez, sempre usando as pistolas.

Não tripudiei em cima dele, não havia razão, o homem estava completamente vencido. Inspirei fundo, relaxando, foi o primeiro respiro tranquilo da noite. Ajeitei o moicano molhado contra a chuva me perguntando mentalmente qual seria o destino desse cara depois de interrogá-lo. Lembrei-me de que no banco de trás do carro que Drone usou para me trazer aqui tinha algumas cordas e fitas, poderia deixá-lo amarrado em um poste apodrecendo até ser recolhido pela policia. Mas então lembro que as prisões estão lotadas e o judiciário entupido de processos. Amordaço amarrando bem o cara e jogo no porta malas, é, vai ser isso. Estranhamente arrasto um corpo de armadura e com mais de noventa quilos facilmente. Coloco o cadáver de Drone no banco de trás e dirijo por ai, aproveitando o caminho pra pensar o que faço com esses dois…

Fim do Capítulo I.

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