Distopia — Ato III — Instinto de sobrevivência

 —— Tsc.

Ignorei a garota, não fazia sentido rebater sua indagação. Minhas perguntas ficaram sem respostas, era óbvio, depois de Drone, não esperava gentilezas. A escadaria metálica tremeu em uma agonia abstrata, e em seguida houve uma interferência “estática” no Toogle visor que bagunçou o visor e as informações sobre o alvo. Então a luz de alerta ascendeu!  O que estava acontecendo Indaguei em pensamento. Toda estrutura atômica e molecular da armadura foi abalada por uma força invisível, nanômetro por nanômetro reagiram como vespas furiosas, parecia que a armadura de nanosuit estava rejeitando seu dono como ímã de similar polaridade. Minha postura com o arco se manteve fiel, pois a interferência magnética no mesmo existia, porém diferente da armadura, eu o segurava firme.

—— Magnetismo… – Pensei em voz alta.

Deduzia pelo modo como a estrutura da escada e o toogle visor reagiram ao fenômeno, à dimensão do efeito disso na armadura foi revelada quando o visor ficou permanentemente danificado e as fibras de nano máquina começaram a se desfigurar, parte por parte. A armadura não era simples como os robôs fabricados pelas megacorporações, estava mais para um traje constituído por três partes de cor escura como a noite cabeça, tronco e pernas  do que simples “peças e parafusos” agrupados. Naquele momento eu percebi a fraqueza do traje, e reconheci que minha vida poderia estar em jogo.  Maldição!  A situação se configurou mais perigosa do que pude planejar. Eu não pensei muito, apenas reagi.

Mudei o laser de posição e mirei na lateral da estrutura do prédio clandestino, cerca de um metro e meio de distância da jovem de moicano. Disparei. Cem metros por segundo foram percorrido em uma piscadela. A seta fixou no reboque. Eu tinha um plano. A seta saiu do raio de ação do magnetismo, procurei ser meticuloso neste aspecto, seria vergonhoso um soldado altamente treinado não conseguir esta proeza. Todavia  armadura estava inutilizável e vulnerável, era um fato! os projeteis me acertaram.

O primeiro acertou o ombro e atravessou que nem papel, felizmente o tiro acertou só músculo e triscou a clavícula direita; o segundo foi mais sério, pegou perto do apêndice; o terceiro e o quarto foram de raspão, um pegou na lateral do capacete e o outro no braço esquerdo. Após alguns segundos a seta que estava fixada no reboque explodiu, era uma super-thermite que sempre esteve de prontidão no arco, seria usada primariamente para capturá-la sem “matar”, mas tive que mudar de planos devido às eventualidades. A explosão não tinha mais por objetivo causar dano, mas sim, uma forma de desarticulação para cessar a interferência magnética e os disparos restantes Pedaços de concreto, poeira, e sujeira voaram para todos os lados, e seus efeitos apenas mexeriam com os instintos primitivos de sobrevivência da jovem, trabalhando seus reflexos involuntários de proteção a fatores externos, como um susto a explosão. Este foi o momento que usei para saltar da escada, e me afastar, meu contato com o solo foi brusco senti dores devido aos ferimentos das balas, principalmente na região perto do apêndice.

—— Nnnnghh! – A dor era intensa.

Não tinha tempo para sofrer, saquei rapidamente uma nova seta, e flexionei o arco com precisão fria e calculista. – O ombro lesionado latejou. Segundos dentro da distração, era a brecha que precisava para voltar ao jogo. O novo disparo ocorreu. Uma seta de descarga elétrica de alta tensão  Electric Arrow  se fixou no chão molhado próximo a garota, cerca de um metro. Eletricidade e chuva. Combinação perfeita! A seta dispersou a descarga elétrica de alta tensão que se propagou pelo chão molhado como um raio em torno da jovem, fato potencializado pelas poças, chuva e o corpo molhado do alvo que serviria como um dos condutores. Ela parecia lerda demais, não respondendo de imediato, as pernas se movia com certa debilidade, uma operação teria esse efeito? Não sei dizer,  mas tendo em vista que ela saiu pela da porta da clinica a causa deve ser essa.  Sem templo de planejamento optou por uma evasiva desesperada; correr para o lado inverso movendo-se abruptamente, aquilo foi o fim do confronto, envolvida por raios azuis os pés molhados distribuíram a corrente faiscante ao longo do seu corpo. Eletrocutada tentou gritar, mas o ar se embolorou dentro dos pulmões e sua voz em tom seco ecoou pelo beco.

—— ELETRO-MAGNETISMO? 

Aquilo não significava nada para mim, apenas me limitei a observar o choque causando movimentos involuntários, contorcendo-a como o cadáver do colega, a diferença é que sentindo dor, até que não suportou e tombou ao chão sem consciência numa poça de água. Fora Iludida pelo poder, pela chance de vingança.

 “A emoção é a melhor arma contra a razão. Alguém me disse. Era o caso?

Suas palavras em exclamação e inconformismo não me surpreenderam, de fato eu era um monstro.  Afinal neste mundo há inocentes? Talvez essa fosse nossa principal diferença; Eu reconhecia o monstro dentro de mim.  Entre as singularidades dos fatos, o corpo esguio era bastante pesado para alguém do seu porte. Estando a mercê do destino e da minha benevolência não me importei de perder meia hora tentando reconectar os componentes do traje que concedem força sobre-humana, foi a única coisa que consegui trazer de volta  quanto a funcionalidade da armadura, não importava, era só o que precisava naquele momento. Ergui a jovem desfalecida nos braços e carreguei seu corpo agora sem dificuldade para um edifício abandonado vandalizado com pichações e marcas territoriais de gangues   que não é difícil de se encontrar em Zavist com sua vizinhança marginal e decrepita  – No terraço de um dos prédios daquele submundo, o beco não era mais uma opção, o jogo continuaria, só mais brutal.

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Eu vi uma luz forte, azul, ela era linda, mas mortal, se propagou tão rápida, tanto quanto logo se apagou. Depois surgiu o silêncio, trevas e medo. Sempre ouvi dizer que as pessoas eram levadas desse mundo por outra luz, uma branca. Por que ela me foi negada?

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Tantas coisas passando por sua cabeça, entretanto o que vem a mente é um “danou-se”, tudo por não saber ignorar, não saber dar a outra face, danou-se por não levar desaforo para casa, por achar que valia a pena lutar ao que chama de honra.  É claro que X-9 poderia ter deixado o assassino para a policia e o problema era da justiça… Mas neste lugar a lei não chega. Talvez tenha sido burrice ter feito o que fez, mas era tarde para arrependimentos, não havia outra escolha além de encarar o inimigo. Se estava morta naquele momento, como conseguia articular estes pensamentos? Talvez a morte fosse isso, confusão, mais uma vez pensou.

suspensaMas para sua surpresa ainda não fazia parte do mundo dos mortos, no entanto a situação não era muito melhor, reabriu as pálpebras pesadas sob a chuva e notou  estar a beirada de um terraço suspensa apenas pela mão com o valentão apertando feito uma prensa os dedos envolta do seu pulso. Não restou dúvidas de que fora levada para uma rodada de interrogatório e a tática do terror psicológico seria a principal ferramenta. Olhou para baixo e certificou, uma queda daquela altura tinha poucas chances de sobrevivência.  – Pisquei algumas vezes tentando entender, a neblina e a tempestade me impossibilitavam de ter alguma visualização, e apesar de faltar menos de uma hora para amanhecer a escuridão ainda era densa. Por alguma razão ele não me matou… Eu sei porque, a informação deve ser muito importante. O que será que tinha naquelas pastas ? Bom… Acho que se eu ficar de bico fechado isso me mantem viva por um tempo? Vamos ver…  – O precipício urbano a esperava de braços abertos, ela adiantou-se antes que fosse questionada, abrindo dialogo prorrogaria sua existência dependendo das respostas. Precisava transparecer assustada, não necessitou esforço, estava de fato com muito medo de cair.

—— Você quer saber sobre os caras com máscaras de palhaços, eu também!  Não eram para estarem lá, mais pessoas querem os arquivos, a prova viva é você. Mas eu não sei o que tinha naquelas pastas, a gente só faz o serviço, não pergunta. – Disse com o rosto erguido para cima, olhando o outro que lhe mantinha suspensa pelo pulso.

O charme era manter ele preso no interesse.  – Antes de ser atingida eu me lembro de erguer  das lentes os meus implantes oculares algum tipo de informação que no desespero li em voz alta; Eletro-magnetismo… – Foi então que venho a atitude desesperada, seu implante neural de manipulação de sinais tomou automaticamente a dianteira ativando-se com a recordação da mensagem em suas sinapses e o comando respondeu de imediato naquele momento. Envolvida por uma aura azul canalizou toda a corrente elétrica que passou por seu corpo reluzindo sua pele e despejando em forma de uma intensa  luz forte. A capacidade de modificar ou interagir com correntes elétricas  que seu implante neural  possui armazenou energia  do choque  como uma bateria humana ao receber a carga momentos atrás lá embaixo no beco.

—— Quanto a dar o nome do nosso contratante sinto muito! Não entregamos os clientes! 

Devolvendo o presente a corrente elétrica passou pelo corpo do homem que gritou, o choque fez ele soltar o pulso e ser arremessado a longos quatro metros, bem atordoado. A única falha do plano era a gravidade. Mas estava ciente e levou as mãos em desespero a beirada do parapeito do terraço, evidentemente em vão. Os dedos escorregaram pela pedra úmida da fachada, peso extra das articulações de metal também contribuiu para a queda. Restou gritar de temor diante a atitude impensada, mau planejada e pessimamente executada.

—— AAAAAAAAAAHHHHH!!!!!!!!!! – Gritou tomada pelo pânico.

Se por um lado caiu, a tentativa de se segurar mudou a rota da queda, seu tórax bateu em um imenso letreiro de neon preso abaixo da fachada, estilhaçando este e apagando-o parcialmente. Novamente tentou se segurar no que restava da propaganda luminosa, só que diferente do que era para ser, seus movimentos não eram treinados, muito menos programados, tudo fora feito no susto, e a letra se desprendeu do painel ficando em suas mãos enquanto caiu de novo.  Foi de encontro a algumas vigas de ferro antes de por fim despencar no ar novamente.  As costas se colidiram com uma quantidade enorme de ferro, este que se retorcendo todo abaixo do corpo. Quando abriu novamente os olhos notou que o que amassou foram exaustores, um conjunto de ar condicionado e as pás de hélices que giram nos telhados das edificações – Algo que ela nunca descobriu até hoje para que serve. – indicando que suas tentativas desesperadas se causaram dor ao menos serviram para que caísse no terraço de algum edifício vizinho menor. Quem diria, a poluição visual e a falta de planejamento urbano que permitiu os prédios aglomerarem-se uns aos outros a salvou de uma queda fatal iminente.

Quando tentei me reergueer vi um rapaz albino quase da minha idade sentado do meu lado, seu nome era Roy, ele costuma alimentar as pombas que pousam no terraço do seu prédio.  Eu me pergunto antes de tudo… Que maluco cuida de pombos na chuva na madrugada, E AINDA POR CIMA SEM CAMISETA SÓ DE BERMUDA? Depois, quando ele falou comigo que eu notei que o coitadinho era digamos… Meio lesadinho das ideias,” lerdinho” como costumo dizer. Roy pareceu impressionado, eu também me impressionaria ao ver alguém despencar do céu.

paienl—— OBA! TÁ CHOVENDO MULHER! Moça. Você está bem? – Perguntou segurando uma pomba branca nas mãos.

—— Não como gostaria… Hnn… Acho que quebrei algo…  Qual é seu nome?  Respondeu e depois perguntou tocando a região esquerda das costelas.

—— Roy, meu nome Roy. Eu gosto de pombos, essa hora é tranquilo, então subo no telhado para cuidar deles. – Ele mostrava a pomba branca nas mãos.

—— Legal… Roy… É melhor você correr, sai daqui e procura ajuda… – Avisou se erguendo enquanto limpava a própria roupa com as mãos.

—— Por que? – Questionou acariciando a pomba.

—— Vai! Só faz o que te disse! 

Puxei do sobretudo o par de pistolas, uma delas estava completamente descarregada, chequei nos bolsos e para meu alivio havia munição reserva. Carreguei novamente a arma, joguei o pente vazio fora e coloquei o novo, é ao menos isso eu sei fazer… Não que me orgulhe mas quando fiz parte de uma gangue eu carregava a munição das armas, mas só isso. Roy arregalou os olhos e decidiu seguir minha dica.

—— OOW! Ok! Ok! Mas você não se apresentou, não sei seu nome ainda! – Interrompeu a corrida voltando dois passos para trás..

——  O meu é X-9. – Disse olhando para as pistolas.

—— Isso não é um nome. – Sorriu.

——  Mas é assim que me chamo, AGORA VAI! – Alertou fazendo sinal para descer, usando uma das armas como indicativo. 

Não quero ter mais sangue sujando minhas mãos, não mais o quanto deve. Esperei Roy descer as escadas  e apontei  o par de pistolas em direção ao terraço vizinho de onde cai. Eu não podia saber se aquele soldadinho ainda estava abalado pelo feixe de luz, para ser sincera eu nem sei se ele se abalou, de qualquer forma mandei bala na direção dele.

—— QUE SACO! MERDA, MERDA, MERDAAAA!!!

Quando entrei para uma gangue alguns anos atrás, a mesma que citei, teria me sido de grande valia também ter aprendido a atirar… Eu não consigo acreditar que gastei um pente inteiro na caixa d’água do terraços, estou frustrada demais com todos tantos erros por falta de experiência, acho que não sirvo para o trabalho. Um dia aprendo a usar esse alvo digital que surge nos meus olhos e se alinha com a pistola, enquanto isso vou improvisando. 

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