Distopia — Capítulo I — Ato I

Em algum lugar no tempo, numa cidade que pode ser a nossa, a violência urbana chega em níveis insustentáveis. Cada vez mais as gangues de rua se apoderam dos espaços públicos, fazendo de cada quarteirão o seu verdadeiro domínio de violência. Os representantes da lei já não controlam mais a situação. É neste cenário caótico que megacorporações tomaram o poder público para si, sendo mais poderosos e decisivos que  qualquer representante politico e Governos. Empresas mantém sua segurança e a da população com verdadeiros exércitos privados. Por outro lado, buscando qualquer tipo de vantagem sobre seus concorrentes utilizam de serviços mercenários para roubos de dados e espionagem industrial sem que levante suspeitas. A história fala de um desses grupos, em especifico, de uma integrante que logo ficará conhecida nas ruas e nos bancos de dados virtuais como X-9.

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ROOF

Ambiente escuro, enfumaçado, os fachos de luz, como refletores que espreitam algo ou alguém e movem-se sem parar de um lado ao outro incansavelmente entre os prédios aglomerados. As ruas sempre foram um lugar perigoso a noite, mas eles tinham uma conduta que parecia simples porém eficaz se fosse obedecida, nunca se metiam no território dos grandes predadores. A maior parte do tempo agiam em áreas que não pertencessem a nenhuma gangue, a mega-cidade oferecia inúmeras possibilidades, tinha lugar para todos. Embora a algum tempo isto vinha mudando, estava difícil encontrar uma região que já não tivesse dono. Estas pessoas que sobrevivem arriscando a vida na madrugada nunca se tratam pelo verdadeiro nome, sempre por pseudônimos. Estes são chamadas de Samurais Urbanos, freelancers que ganham a vida roubando informações e ou fazendo os serviços mais arriscados que ninguém quer. Quase sempre precisam de alguém por fora sendo seus olhos e ouvidos, por isso agem com um hacker. Eles mantem contato  em algum terminal de acesso, esse hacker que esta em outro local, invade o sistema de segurança da empresa, os Samurais Urbanos entram no prédio, roubam o que precisam e vão embora.

terminalOs prédios escuros de art-deco projetam sombras sobre as calçadas dos terminais de acesso, criando pontos cegos nas câmeras das ruas, e como a maior parte do tempo chove, contribui para manter as identidades ocultas. Os terminais de acesso, monólitos de metal, telas de LED e circuitos, dispõe-se espalhados pelas esquinas. Inicialmente deveriam ser usados como oráculos eletrônicos para a população, no entanto por terem IDs e IPs rotativos são a chave preferencial de hackers como X-9. É um trabalho organizado em equipe, PeeBoy com sua arma faz vigília nas sombras do beco para a novata entrar em contato com X-9 por meio do terminal invadido, feito isso a hacker consegue acesso ao sistema do prédio da megacorporação e desativa sua segurança informatizada e os avisa. Neste caso, é a a própria novata que fica a cargo da comunicação intermediária entre o grupo e o hacker, enquanto os demais tem atividades mais complexas.

——  Desbloqueei as tranças eletrônicas das portas, desativei os alarmes. Para nossa sorte toda a segurança da empresa é feita por androides e desativei eles também. Os arquivos em papel estão no ultimo andar. Deixei os elevadores ativos para subirem mais rápido. Vocês tem dez minutos para pegar o fichário destas pastas e saírem do prédio. É tempo mais do que suficiente.  A voz soava  oculta através dos pontos eletrônicos em seus ouvidos.

Pronto, o caminho esta livre para os Samurais Urbanos entrarem na empresa sem preocupação.  X-9 deixa apenas as câmeras em atividade, mas passando imagens repetidas dos corredores vazios do prédios, enquanto  hackeia e transfere as imagens reais para seus tantos servidores piratas. Assim pelos inúmeros  monitores que dispõe a frente de sua mesa, observa a ação dos colegas e se comunica via ponto em seus ouvidos.

—— Peguem o que o cliente pediu e caíam fora. – Repetiu, o timbre metalizada indicava que a distorção era para a voz não ser reconhecida.

—— Espera, tem algo aqui vai dar um bom extra. Esse cofre deve ter grana. Que idiota ainda usa cédula? Não que eu me importe, dinheiro é dinheiro. – Falava tateando um cofre verde musgo embutido na parede da sala.

—— Eu falei pra sair! Sua função unicamente é manter contato comigo e avisar a equipe, não roubar cofres. – Tornou a lembrar a voz de timbre metálico.

—— O pessoal está procurando os fichários, eu posso pegar o dinheiro enquanto isso, o sistema de segurança está desativado, a porta do cofre não pede senha, vai ser rápido. – Calmamente abria a porta do mesmo.

—— Mas eu não sei quanto tempo ainda consigo manter ele desativado! 

—— Tu consegue, falou uma vez que trabalhou nessa empresa e fabricou o software. – A novata pegava as notas em abundância, esboçando um sorriso de ponta a ponta no rosto. Parecia hipnotizada com o dinheiro.

——  Sai dai, porra! Tem mais alguém com vocês! Avisa o grupo! – Alertou gritando.

A  parede do cofre explode, o concreto vai abaixo, a  força joga os cinco Samurais Urbanos para o alto. Chove cédulas na sala, infelizmente nem todos tem a classe e silêncios deles, algumas pessoas preferem explosivos. Quando a poeira do concreto baixa eles veem as quatro mascaras de palhaço. A família Souuchii que se converteu em uma gangue estava no comando daquela área, foram contratados por mais alguém interessado naqueles arquivos. A empresa optou por fichários de papel para não ser vitima de hackers, mas isso não protege de  vândalos como os palhaços.

clowns

Eles nunca dizem nada, não falam quando estão trabalhando, o pai, o palhaço gordo apenas faz sinal com a cabeça e os filhos entendem. Contra machados e porretes com pregos os Samurais Urbanos não tem chance. PeeBoy tenta disparar a arma, mas antes de conseguir puxar o gatilho um machado atravessa seu peito espalhando sangue na lente da câmera que servia de olhos para X-9  e antes de perder o contato definitivo com seu grupo ouve um zunido de lamina pesada fatiando algo vivo, carne sendo dilacerada e ossos se partindo, resultando em um grito de agonia. O som se silencia, a imagem do monitor se apaga com o golpe de machado na lente. X-9 tenta não se desesperar, seu desespero não vai ajudar nessa hora mas pensar com racionalidade sim. Então se lembra dos  servidores seguros, faz uma chamada para a pulseira holográfica de Duncan. O material de metal se desenrola do pulso do mesmo, levantando um display de três polegadas.  Receoso o colega aceita a chamada, a tela holográfica projeta no vazio a imagem 3D  no link. Em vez de aparecer a imagem real de X-9 um pequeno filme roda na pequena tela.

bou—— Eu vi as máscaras de palhaços…  A novata vacilou, era para mantê-los avisados, o trabalho dela era só esse… Vocês estão bem?

—— Agora é tarde pra pensar nisso.Eu, o Drone, Sasha estamos. Conseguimos nos esconder dos palhaços. A novata que queria roubar o cofre não sei…  A parede explodiu na cara dela mas acho que vai sobreviver. Já o PeeBoy…  – Lamentou coçando a nuca.

—— O que tem o PeeBoy?  

—— A coisa  tá feia pra o lado dele… Os palhaços fatiaram o cara… Tem sangue pra todo o lado. A Sasha  tem conhecimento em enfermagem… Mas nem assim tá conseguindo dar  conta dos ferimentos. – Duncan rodeava os dois, sem saber o que fazer. 

—— Levem ele pra um hospital! Porra!  – A voz se tornou ainda mais metalizada em timbre alto.

—— Ficou maluca? A policia só não chegou ainda por causa dos alarmes desativados. Mas se formos a um hospital vamos ser presos.  –  Dizia Duncan caminhando apreensivo de um lado a outro.

—— É verdade! Tinha esquecido, essa situação toda tirou meu foco…  vocês tem pouco tempo, cinco minutos no máximo, depois os alarmes vão tocar, os androides voltarão a ativa e as portas se trancarão! Levem o PeeBoy e a novata como puderem, desçam o elevador e vão para o estacionamento. Quando destravei a segurança do prédio isso abrangeu todos os bens da empresa, incluindo as trancas dos carros. Peguem um, saiam rápido enquanto passo o endereço de uma clínica clandestina próxima. 

——  Ok, mas será que da tempo? – Parou no meio da sala, falando com a pulseira e o braço erguido para frente. 

—— Só vai saber se começar a se mexer. Vai logo!

Sabendo  que não pode fazer muito sem ser torcer para que dê certo, quando eles chegam a clinica X-9 hackeia as câmeras da sala de operação e vê a situação critica de PeeBoy. Ele foi praticamente feito em pedaços. Onde seu corpo foi aberto há uma quantidade absurda de tubos e aparelhos ligados que ela não faz ideia para que servem, alguns drenam sangue, outros mantém sua respiração, e tem alguns que despejam um tipo de remédio. A máquina que registra os batimentos cardíacos mostra um sinal vital fraco. OS cirurgiões correm contra o tempo  tentando como pode fazer de tudo para salva-lo. Usam técnicas novas de cirurgia, e é a parte mais chocante, onde ela presencia o cérebro exposto.

PeeBoyfudido

Ela desliga a transmissão quando vê aquilo,  o estado dele é  preocupante e pondera que só um milagre o salvaria, se sobreviver, terá de viver pelo resto da vida com próteses e nunca mais será o mesmo. Ela então abre o link do servidor seguro para a pulseira holográfica de Drone.

—— Drone… Eu não sei… Mas o estado do PeeBoy é muito sério… 

—— Mas… Não se desespera… Tenta não perder a calma, tenha fé. – Drone estava sentado na sala de espera, em uma sequencia de bancos vazios.


—— Fé… Fé nunca me trouxe nada…  Recebi uma mensagem do nosso cliente… Ele disse que se não entregarmos os arquivos no prazo, vamos morrer.

—— Deve ser blefe.– Deduziu.

—— Não temos como saber.

—— O que tem em mente?

—— Nada muito claro. Hackear um androide, desenvolver um exoesqueleto a partir das suas partes…

—— Não temos muito tempo. Precisaríamos planejar isso muito, já vai amanhecer, teríamos de esperar a noite para agir e depois construir a armadura. Fora de cogitação. Precisa ser uma solução mais rápida. – Respondeu erguendo-se da cadeira.

—— Então vamos ser sinceros, algum de nos vai ter de sacrificar…

—— Onde quer chegar? 

—— Precisamos pagar essas operações e não vamos receber se não entregaremos os fichários que o cliente quer. E caso não seja blefe, também não temos opção, ele vai nos matar. Vamos escolher alguém para se submeter a uma operação de implantes de força e pegar de volta os arquivos dos palhaços.

—— Mas… Se não temos dinheiro como vamos bancar mais uma operação? E caso tivéssemos quem ia se submeter a essa loucura? – Caminhava pelo corredor. 

—— Relaxa que isso é o de menos… Partes humanas originais valem muito no mercado negro de órgãos, é só negociar, falar que trocamos as partes orgânicas por implantes. A cirurgia nem será cobrada. Quanto a quem vai topar a loucura, isso sim é o problema, PeeBoy  e a novata estão em coma. Sasha… Eu duvido que concorde em modificar o corpo, ela é muito vaidosa. Duncan é covarde demais. Resta você e eu.

—— Nesse caso… Vou eu… – Foi quase um lamento.

—— Não. Você tem família, esposa e filho.

—— Por isso mesmo, você não tem. Um dia vai querer ter filhos. – Ainda parecia um lamento.

—— Não… Não vou querer… – As palavras estavam carregadas de incerteza.

—— Não senti convicção. Pense bem. São  modificações irreversíveis. Sua vida toda vai mudar. – Foi até a rua para fumar um cigarro.

—— Já decidi, tremo de medo até de uma obturação dentária, mas eu sempre fui a fraca do grupo. Só na frente de uma tela batendo dedos num teclado.  Você me pega aqui de carro?

—— Sim. Só me responda, tá fazendo isso pelo PeeBoy, por todos nós, pela grana ou pelo seu orgulho? – Indagou soltando a fumaça debaixo de uma marquise, para se proteger da chuva. 
—— Por tudo. E mais um pouco. Se eu sobreviver ao processo dos implantes vou contratar mais pessoas para ampliar nosso raio de busca.
—— Qual foi a parte que tu não entendeu que não temos dinheiro? – Deu mais uma tragada no cigarro. 
—— Relaxa, confia em mim. Te passei meu endereço, vem me buscar antes que eu mude de ideia.

carronobeco

A chuva aumenta conforme a estranha madrugada avança, o carro estaciona em um beco sujo, úmido e entre uma fileira de seis  vigas industriais fixadas ao chão e a parede do beco um homem está tomando uma mulher na penumbra, ele está gemendo, ela chorando.“Não é da minha conta.” X-9  pensa, mas gostaria que fosse. “Eu iria agarrá-lo pelo pescoço, e espremer seus olhos para fora do rosto”. Não era uma pessoa violenta, mas sendo mulher aquilo a enojava. Ouviu um xingamento baixo, quase inaudível mas pesado, sujo e bruto seguido de um choro feminino igualmente quase imperceptível vindo daquela mesma direção e voltou a pensar; ”Se ignorarmos isso, estaremos sendo coniventes… “ Afastou o pensamento violento e vingativo entrando no consultório onde seus colegas estão internados, sabia que Drone e ela não eram fortes suficiente para enfrentar o molestador.

O CAÇADOR

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Horas antes, em um beco escuro de Zavist, tinha um corpo nu de uma jovem com a barriga dilacerada. Antes de ser morta ela foi violentada

Esta cidade é repugnante, eu vi sua face, as ruas, os becos, os prédios são estruturas dilatadas e estão impregnadas de sangue e lixo.

Quando tudo isto finalmente transbordar, todos os vermes da cidade vão se afogar.

A podridão de tanto sexo e matança vai espumar até a boca.

E todos os seres de Zavist vão olhar para cima, pedindo ajuda, e o destino algoz vai sussurrar:

Não!

Este mundo esta de cabeça para baixo, olhando para dentro do inferno.

Lá embaixo, nesta cidade horrível, gritam como matadouro cheio de seres retardados.

E a cidade fede em fornicação e consciências imundas.

Será que isso tem alguma importância?

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Naquela madrugada, na selva de pedra, o relógio predestinava  o ponteiro do tempo com precisão mecânica e calculista. Oculto na escuridão da noite chuvosa, um estereótipo de armadura escura forjada pelo medo dos homens e que flertava com o desejo de punição, estava na vigilância do seu próximo alvo, uma megacorporação. Em jogo não estava interesses monetários, não tinha espaço para essência mercenária, isso era futilidade do sistema iníquo. O alvo era os dados arquivados em pastas de forma arcaica para os novos tempos que continham informações importantes de indivíduos poderosos e um antigo projeto “CT-01” que remonta antes do conflito entre as nações e o tratado que fizeram.

As investidas contra o império dependiam desses dados. Um segundo interesse era a competição que a Liga dos Predadores tinha hoje a noite, colocando grande parte de seus novos integrantes em teste. Portanto meus objetivos eram dois. Com o toogle visor ativado, toda estrutura predial da empresa foi mapeada, os robôs de segurança, câmeras, etc. Mas alguma coisa estava errada, não era para ter pessoas no prédio. Meu toogle visor identificou nove indivíduos dentro da empresa, precisamente no último andar, onde estava meu objetivo. Definitivamente não parecia algo normal, até que uma explosão pode ser sentida e confirmou meu pressentimento. Meus planos acabavam de mudar, e a noite seria longa caçada.

Como um hábil caçador, observei as movimentações dos indivíduos, o primeiro grupo sumiu, eram quatro de mascaras, os outros cinco foram para o estacionamento. Minha atenção voltou-se para eles. Com o extreme speed ativado e circulando em minha corrente sanguínea, e com o toogle visor de apoio, persegui o carro que saiu em fuga da empresa, me articulando célere entre os aglomerados de prédios.

(…) O carro parou em frente de um prédio de porte médio, os cinco indivíduos entram rapidamente carregando dois feridos, então deduzi que aquele lugar era uma das várias clinicas clandestinas de Zavist. As expressões e postura agitadas de alguns dos indivíduos antes de entrar mostrava que algo deu muito errado. Um dos indivíduos saiu do prédio, e entrou no carro novamente e se foi. Tempo depois voltou, trazia uma garota de moicano azul-lilás.

Nas escadarias em “zig-zag” de um dos prédios no beco que dava acesso aos fundos da clinica clandestina, camuflado pela escuridão e pouca luz, permaneci inerte e paciente como um monge. Meus batimentos cardíacos eram suaves, não existia tensão, era apenas mais uma caçada por informações. Conforme a madrugada avançava, a chuva aumentou, foi quando decidi agir. Capturei um dos membros, por algum motivo que desconheço ele saiu do prédio como que se estivesse fugindo de algo, ou alguém. Não liguei, interroguei de forma violenta sobre o que ocorreu na invasão a megacorporação, perguntas como: quem eram os mascarados, o que procuravam e para quem trabalhavam, porém sem sucesso, algo o assustava mais do que eu, entretanto entendi que tem gente que prefere morrer pela causa.

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