Distopia — Ato II — Entre atos e consequências

mesaUma hora e meia depois ela acorda do pós operatório, esta em cima de uma cama de metal suja, enferrujada e encardida com sangue velho coagulado. Os olhos não enxergam quase nada, a sala está escura, e também fede. O material cirúrgico foi jogado em um pote de vidro, bisturis e outros utensílios bizarros cortantes mergulhados em um liquido marrom opaco misto entre sangue, soro e pus. Provavelmente nada disso foi esterilizado antes da operação medica, há embalagens descartáveis espalhadas pelos cantos da sala.  A bem da verdade X-9 tem sorte de não ter morrido durante a cirurgia clandestina. Ela não se lembra da operação e pensa que é melhor assim. Alguns tubos e fios estão conectados em seu corpo, principalmente ao longo da extensão da sua coluna, braços e pernas aquilo dói, incomoda muito. Por alguma razão desconhecida está trajando uma roupa diferente, é da cor preta, calças e blusa justas. Ao primeiro comando  corpo não obedece. Na quarta tentativa ela consegue se erguer e sentar-se na beirada da cama. Sua cabeça ainda gira. Quando coloca os pés descalços no chão frio, a garota de moicano azul-lilás se sente pesada e não consegue ficar em pé, vai ao chão. Com receio de fazer algo errado ela arranca os fios e tubos conectados em sua pele, as costas reclamam. Depois ensaia os primeiros passos, como se tivesse de reaprender a caminhar. Mas isso é como andar de bicicleta, nunca se esquece, é questão de prática, precisando se segurar nas paredes X-9 finalmente ensaiar os primeiros passos, anda aos tropeços, é necessário apoiar o corpo em somente um dos lados. A hacker sai da sala escura e fedorenta mas não encontra ninguém, caminha por corredores sem sinal de vida, nem dos médicos e nem de seu colega. Vagando lentamente como um zumbi, arrastando bandagens enroladas no corpo, encontra um vestiário. Lá se desfaz dos trajes escuros e veste uma calça jeans, botas cano longo de cadarços e um sobretudo marrom que toma de um armário sem tranca. Saindo pela porta dos fundos do consultório, ainda chove muito forte, com o andar débil e pesado, aos trancos e barracos vai tropeçando em poças de água do beco.

O vento noturno carrega o cheiro imperceptível de violência e sujeira que somente ela sentia, fazia também o sobretudo  se agitar inquieto e inundava o beco com o vapor amarelado dos bueiros. A silhueta estática sob a chuva se mantinha assim sobre a fumaça fétida erguida do mormaço escaldante, meio atordoada pela sensibilidade dos novos sentidos, sons aleatórios surgem salpicando seus tímpanos até reconhecer de longe uma sirene que uivava ao longe e seus ouvidos reclamam. O corpo formiga com as suturas mau feitas de uma operação clandestina, incomoda, removeu as ataduras.

O trovão anunciou o pranto mais intenso da chuva e as lágrimas da tempestade escorreram pelo seu esguio rosto feminino, fechou os olhos tentando  purificar sua transição de humana para… Aquilo que acabou de se transformar não sabia bem o que era agora. Ainda de olhos fechados saboreou a chuva quente caindo sobre sua face, e apesar de parecer purificadora, as gotas da tempestade trazem fuligem cristalizada da poluição, a sujeira gruda aos fios de seu cabelo molhado. Retira as bandagens remanescentes de rosto e braços, ela é uma nova pessoa, este é seu novo nascimento.

 

 

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                ❝(…) Não existe como criar consciência sem dor.

As pessoas farão de tudo, não importa o quão absurdo seja, para evitar encarar a própria alma. 

                   Não nos tornamos iluminados apenas imaginando figuras de luz,

                                                  mas criando consciência da escuridão.❞ 

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Meu nome é Spectra Machine, á sua vista um humilde veterano de guerras, considerado “vilão” pelas vicissitudes e vestes do Império dos homens, o vigilante e o virtuoso que poucos conhecem, estou aqui, no suporte de uma escada de ferro a mais de uma hora com a chuva despencando pesadamente sobre a nuca a espreita de algo novo dentro daquele consultório sujo e vulgar,  então,  a garota que veio com o interrogado – Drone – aparece, saiu por uma porta dos fundos do prédio, estava diferente, postura cambaleante, ataduras pelo corpo e, sobretudo. Um corpo desfalecido foi atirado aos seus pés, uma figura bem familiar. Um laser vermelho cortou a escuridão do beco projetando-se no centro da testa da garota enquanto uma voz quebrou o silêncio.

—— Apenas quero simples respostas…  Anunciei o alerta calmamente. 

—— Para quem vocês trabalham e o que procuravam naquela empresa?  Minhas palavras modificadas por um dispositivo de voz parecia soar estranha nas entranhas daquele beco escuro.

Meu tom era desprovido de qualquer calor, mais frio que o cutelo de um açougueiro e a lamina de um assassino. Um simples movimento, e o meu visor vítreo carmesim e cromo reluziu diante de um raro facho de luz que revelou minha posição nas escadarias de um dos prédios. A resposta da garota seria crucial para determinar os eventos a seguir, senão seria apenas mais uma abatida pela flecha do destino,  já que sou aquele que pune as pessoas,  não por vaidade, pois um dia as consequências de meus atos ão de vindicar tudo o que fiz, talvez mais cedo, talvez mais tarde.

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—— DRONE! – Gritou tão alto que a voz ecoou pelas paredes encardidas do beco úmido. 

Foi assim que ela abriu os olhos, com o coração martelando o peito, enxergando o corpo atirado do colega. Privada de saber a condição do mesmo, a preocupação fez surgir nas lentes dos implantes oculares alguns gráficos ainda desconhecidos, mas que claramente denunciavam as atividades físicas do individuo jogado a sua frente. Batimento cardíaco, atividade cerebral respiração, pressão sanguínea entre tantas outras informações, incluindo a própria identidade do rapaz. Mas nada disso trouxe alivio, todos os gráficos de atividade física estavam zerados. Não precisava ter experiencia para entender o que significava.

—— VOCÊ O MATOU! VOCÊ MATOU ELE, MONSTRO! – Uma lágima solitária escorreu pela face, outras vieram depois, mas se perderam com a chuva. 

Ela o odiou por isso, mal teve tempo de pensar e a luz vermelha bateu em sua fronte, seguiu o rastro com o olhar e viu o culpado agindo sobre as trevas que envolviam o beco, posicionado na escadaria de um prédio. O mascarado proveria perguntas frias.

Foi só por isso então? Ele queria informações nossas, dos contratantes, dos mascarados, Drone não deve ter falado e matou o coitado… Não precisava ser assim… –  Modificadas por algum tipo de vocalizador que ocultava o real timbre, aquele artificio apesar de bem conhecido por X-9 trouxe um frio a sua espinha, o tom de voz alterado de certo modo era assustador, diferente de quando usava. Estilhaçada pelo medo, paralisou, não o respondeu, carregada pelo peso da situação opressora desejou que fosse atingida por um milagre, ou que aquela coisa que passou informações sobre o corpo morto do colega lhe desse uma solução do que fazer. Logo o luminoso de novos gráficos alfanuméricos surgiram nas lentes de seus olhos, como a tela de um video game.

visao

—— QUEQUIÉISSO??

Sua visão fora esclarecida, ativada novamente ela não era limitada, só estava levemente obstruída pela ausência do domínio do recurso, aprendendo ativá-la ficaria mais fácil usá-la outras vezes.  Agradeceu por isso.  – Eu não sei como fiz… Mas fiz… Aqui diz que tenho um implante neural de eletro-magnetismo… O cara veste uma armadura… Acho que posso usar… Mas de que jeito ativo essa coisa também? – Novas informações de como poderia ativar essa outra habilidade surgiram nas lentes, então ela seguiu as instruções; respirou fundo, manteve a calma, vislumbrou um insight e uma estranha energia que nunca havia sentido antes  passou por cada fibra do seu ser, como se uma combustão se propagasse por suas veias, e cada terminal nervoso sintético reagia a aquele poder. Instintivamente ergueu o braço para frente apontando para o estranho que a ameaçava e da palma da mão emitiu uma rajada invisível, uma onda magnética contra o inimigo. As peças da armadura passaram a repelir entre si com o desejo de se afastarem uma da outra, parte por parte. Apoiando-se nisso conseguiu responder de uma maneira mais convicta, abandonando a postura assustada.

—— Você mata meu colega e espera que eu te dê respostas? – A voz agora era firme e com raiva.

Julgava que seu oponente não passasse de um simples homem de baixo da armadura. Insegura quanto a nova condição física não quis arriscar, mas ao ínfimo movimento notou um peso nos bolsos do casaco e ao vasculhar descobriu que como “brinde” o mesmo vinha com um par de pistolas e alguns carregadores extras. Não hesitou, ergueu o braço que não fora usado e livremente apontou em direção as escadas. Sua visão interagiu com os mecanismos da pistola, se alinhou com a mira, já havia visto armas assim, miras virtuais chamadas de smartlinks onde a chance de acerto subia para 100%.

mira

—— Por essa acho que você nem esperava. Não precisava ter tirado a vida de Drone. Isso é por ele!!! – Falava com a arma e a mira apontadas para frente.

Porém também ainda não sabia fazer uso dessa propriedade e decidiu não perder tempo e nem se tornar tão dependente do seu “manual de instruções” e  puxou o gatilho, descarregando o pente de balas todo na sua direção, da maneira “analógica” mesmo. Fogo e água juntos, se encontrando em um breve instante ao espetáculo de quando o dedo indicador faz o trágico movimento para trás.  –  Meu corpo tremia, dos pés a cabeça, tanto pela ansiedade e nervosismo quanto pela adrenalina, eu estava em um combate, querendo ou não. Talvez por isso os tiros tenham saído imprecisos, mas nada mau para uma novata, eu não tinha ilusão de que fosse terminar tudo em uma tacada só, seria muita sorte de principiante, e eu nunca fui alguém sortuda, por outro lado percebi que alguns dos disparos tinha acertado o alvo.  –  O som dos tiros deixaram a garota naquele instante com a sensação de dever cumprido,  trazia um sentimento reconfortante, não se culpava ou arrependia de se livrar daquele jeito cruel e de certa forma até injusto, em sua mente estava vingando Drone, tão pouco tinha medo de se tornar uma assassina, igual ao seu alvo.

tiros
Talvez, quem sabe só talvez, depois que esfriasse a cabeça o martírio viria a tona, por enquanto não. – Descobri que sangue quente e poder são componentes  são de uma mistura letal. Quem diria, logo eu, que algumas horas atrás estava na frente de uma tela de computador… Minha vida toda foi só isso, até hoje o máximo de risco que tive foi pegar um vírus no PC e a maior das preocupações era formatar a máquina no dia seguinte… É, as coisas mudam.

 

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