Distopia #01 (Reboot)

Depois de muito forçar o pequeno cofre cedia. Ela olhava culpada, não sabia se era por ter extraviado um presente que ganhará, se por ter pouca força de vontade em fazer economias ou se era pelo pouco dinheiro ali contendo. Sendo como for era tarde demais e agarrou as poucas cédulas e moedas, para onde ia ainda aceitavam dinheiro vivo em vez de Crédito. Foi até o armário e pegou um comprimido branco, guardando no bolso da calça jeans surrada, em seguida foi a geladeira, nela só viu garrafas de água, repensou a frente da porta se usaria o dinheiro em algo para comer ou realmente beberia, escolheu a segunda opção apesar que a primeira lhe daria uma aparência mais saudável em troca da pele pálida e as olheiras. Seu apartamento não tinha luxo nem atrativos, além dos moveis citados havia uma pequena mesa na cozinha, duas cadeiras e louça esperando ser levada. O banheiro se resumia ao box azulejado branco, privada e o espelho, além do enxaguante bucal e escova de dentes na pia. O escuro quarto com o armário e o colchão no chão sem cama oferecia uma TV simples e antiga a frente de uma poltrona lilás, corredorque apesar de usada era bastante confortável. Sem ter muito o que se fazer ali em uma Sexta-Feira pegou o keycard da porta em cima da mesa e olhou mais uma vez para os pedaços partidos do cofrinho e finalmente decidiu sair, atravessou o extenso corredor sem olhar para trás. Era verão, quando abriu a porta a brisa do começo da noite beijou sua pele, contrariava sua primeira regra em sair desprotegida sem sua jaqueta de couro preta, uma vez que o vento carregado de poluição lhe causava alergia, mas se existia algo que incomodava mais do que as brotoejas era o calor, esse ela sempre detestou.consigo Passava por barraquinhas de comida e letreiros luminosos de neon de todas as cores onde era vendida iguarias chinesas, as pessoas devoravam a comida sentadas em bancos luminosos  improvisados no meio da calçada, mesmo que atrapalhasse a passagem de pedestres e ou invadisse as laterais do meio fio tornando o trafego dos carros ainda mais lento que o comum. A fumaça gordurosa jogada ao ar úmido do calor grudava no corpo numa mistura azeda. Ela precisava desviar se não quisesse receber um encontrão e ser levada pela multidão, na maioria jovens de couro negro com implantes cibernéticos e óculos com lentes cromadas. Apressava o passo, estava ansiosa para rever o casal de velhos amigos, o ponto de encontro; a boate Neon Noir. No banheiro masculino em uma das cabines, da forma mais rustica Sasha terminava de fazer o novo implante em Duncan. A tampa da privada servia de mesa para o material que não era da melhor qualidade, por isso resultava em um trabalho artesanal. Duncan não se importava mesmo que os estranhos tubos saindo do seu cranio e os novos visores pretos não lhe dessem uma boa aparência. Eles eram um casal viciado, ele em drogas virtuais e ela em Créditos. Sasha a morena esguia de 1,80m trabalhava como traficante de programas, ou “negociadora” como são chamados, além de ter uma clínica ilegal onde ela mesma coloca implantes cibernéticos em novos usuários. O problema era que o usuário além de dependente de programas se torna viciado em modificações físicas, ninguém sabia o porque. Não que fosse ruim para Sasha que vive tanto da venda de programas quanto de implantes nos dependentes. Duncan, seu namorado francês estava desempregado e dependia da renda dela. Apesar disto tanto ele quanto ela eram excelentes parceiros. A amiga se juntou a eles no banheiro, já imaginando que estavam ali, ajoelhados em volta da privada trabalhando na operação, não era a primeira vez, nos últimos meses isto vinha se tornando bem recorrente, então só para iniciar a conversa ela perguntou sem muito interesse apoiada com o braço direito na parede da cabine pichada com palavrões – Melhoramentos nos implantes?  – Ao ouvir a voz ele levantava a cabeça para responder. – Sim, os programas passaram por uma atualização e não quero perder nada. – Mesmo que não tenha Créditos para pagar pelo serviço, né? – Completou Sasha. –  Se vocês terminaram podemos escolher uma mesa? Não me sinto bem conversando no banheiro masculino.
9cfb0111b92b46a706934481f1cd6fb1– Deu meia-volta e saiu, passando pelo balcão escolhendo uma mesa vaga. Lá a jovem contava sobre o software que passou meses desenvolvendo e que na Segunda-Feira teria a chance de apresentar pessoalmente o projeto ao chefe da empresa, uma vez que os jornais só falavam sobre sua reaparição após anos recluso em sua mansão. E se não desse certo viraria uma hacker fornecedora de informações corporativa. Claro que essa segunda parte era pura brincadeira mas Sasha no entanto levava a sério. – Você não pode ignorar o perigo, se te descobrirem…  está morta.Esqueceu que ganho a vida com isso? –  Lembrou-a, dando continuidade a brincadeira. – Eu que programei os bancos de dados da empresa que trabalho. É como se eu tivesse a chave e o cadeado.  Eles tem cada podre… – Duncan se interessou, ajeitou-se inclinando-se com os cotovelos debruçados sobre a mesa. – Conta um aí! – Tá… – Concordou ela. – Vocês sabiam que as corporações que vendem equipamentos para o exército tentou engenharia genética para melhoramento humano? Criavam clones das pessoas para serem supersoldados. Dizem que tinham até poderes!Atá… – Contestou Sasha, entediada.É verdade! – Prosseguiu. – Mas o custo era alto e o projeto foi cancelado. Então tentaram os implantes, esse mesmo que você tá usando, Duncan. Apesar de barato a pessoa se tornava muito instável e foi cancelado o projeto. Como muito dinheiro foi investido para não ficarem no prejuízo tanto o exército quanto as empresas vendem o material no mercado negro. Traficantes apenas revendem. Não é Sasha? –  Relutante  concordou com a cabeça. – Ok… Isso é verdade… Um General me fornece os implantes e os programas. Mas o resto é bobagem. E somos Negociadores, não traficantes!Para, Sasha! Continua aí! – Pediu Duncan, mostrando estar fascinado com os fatos. – Ok.  Então depois fizeram os androides. Até agora tem dado certo, poder e controle total nas mãos da segurança pública, privada e militar. Mas pelo que li o custo dos andros não anda compensando mais… E vem um novo projeto por aí…Qual? – Perguntou Duncan quase pulando da mesa. – Reviver gente morta. Um hardware no cadáver criaria um  sistema nervoso zumbi, um androide de carne, tipo um cyber- zumbi. Controle e poder absoluto por um custo baixíssimo em uma criatura hibrida, afinal a matéria prima tem aos montes todos os dias por aí.Ah, me poupe…. História pra impressionar criança… Vou pegar mais cerveja. – Disse Sasha erguendo-se da mesa e indo ao balcão. Com os olhos brilhantes Duncan estava fascinado e alimentava a ideia; – Demais! E já pensou no codinome que vai usar para vender essas informações? Você não pode usar seu nome real. Que tal X-9?Porque X-9? – Indagou ela. – Ora… vai caguetar a corporação que trabalha. Tem lógica… – Concordou. – Sem contar que tudo que tenha xis parece descolado e importante tipo; X-Men, Arquivo X, Triplo XXX, X da questão, X alguma coisa e etc.  – Ela deu uma gargalhada alta, Duncan as vezes era inconveniente mas tinha boas sacadas. – Ahahahahahaha, Nunca pensei nisso! Tem razão! Usarei esse pseudônimo se meus planos falharem.  –  Detenho os direitos autorias sobre o nome, quero minha parte. – Eles riam, Sasha voltou com três copos de cerveja e antes de entregar apontou para a pista de dança. – Olha quem esta aqui, ela mesma, Melanie. – A outra garota se debruçou na mesa olhando. – Cara…. Essa garota me odeia… –  E nem sei porque, ela roubou teu namorado… Ops… – Disse Duncan depois de levar uma cutucada de Sasha e perceber que deu um fora. – É… Eu que deveria ter raiva e não ao contrário…Anime-se, vamos. – Disse Sasha – E Duncan… Fecha essa boca!  – Tá tudo bem. – Retrucou – Vamos beber, preciso encher a cara um pouco. – Pôs embaixo da língua o comprimido branco que carregava no bolso  e despejou um gole de cerveja em cima, a bebida dissolveu o “remédio”  lhe dando uma percepção diferente do ambiente. A alegria imediata lhe fez mais comunicativa e risonha. Quase eufórica, era impossível se manter sentada, farfalhar da musica alta entrava eu seus ouvidos e retumbava dentro do corpo, trepidando os orgãos e ossos, contagiava cada fibra sua e a jogava para a pista de dança. Abaixo de mais álcool as luzes coloridas, feixes de laser e neon passando pelos olhos constantemente  alucinavam seus sentidos, ela captava os movimentos alheios como flashbacks em câmera lenta.  Aspirava aquela atmosfera quase sentindo o cheiro das emoções de cada um. O tato tornando-se altamente sensível, qualquer esbarrão em sua pele exposta trazia arrepios e uma tensão sexual em plena pista de dança. Qualquer bebida era saborosa, o paladar estava ampliado. Mas com certeza o sentido mais atingido era a visão, os rostos conhecidos e desconhecidos em reflexos e luzes constantes, escuridão, vagando em olhares. Espelhos planos pelas paredes davam a amplitude de infinito ao lugar. Viu sua imagem multiplicada empinando uma garrafa de vodka e então um clarão e… Momentos perdidos para sempre. Acordou na tarde seguinte na poltrona lilás do seu apartamento,  Duncan e Sasha estavam em sua cama, ou melhor dizendo, o colchão no meio do quarto. – Vocês são muito folgados… a casa é minha e eu que durmo mau…  – Somos dois e você uma… precisamos de mais espaço. – Sasha justificou. –  Sem contar que você chegou em um estado deplorável.Err…. foi? Fiz algo de errado? –  Perguntou – Só dançou muito e estragou sua reputação. Hehe. O máximo que aconteceu foi na hora que seu ex, PeeBoy te encontrou no balcão. – Ai… e aconteceu algo? – Vocês flertaram por um tempo, teve um momento que eu pensei que ia rolar algo, mas não, não rolou.  – Ufa! – Suspirou a amiga. – Ufa? Bem que você é afinzona dele ainda, ahaha. – Se meteu Duncan, levando uma cotovelada de Sasha na altura do fígado e cessando a risada. – Não vou nem comentar Duncan… e a Melanie, apareceu?Não que tenhamos visto. – Responderam ambos ao mesmo tempo. – Que bom, então só preciso lidar com a amnésia alcolica e esse gosto de cabo de guarda-chuva na boca, maldita ressaca dos infernos… – E nós já estamos indo, vamos deixar você se recuperar. – Sasha se levantava do colchão puxando Duncan consigo. – Vocês podem ficar se quiserem… – Mas foi interrompida pela amiga que abriu a porta e saiu com o namorado. – Que nada! Descanse, só viemos deixá-la em casa mas como estava tarde ficamos.  Tchauzinho. – Até mais tarde. – Se despediu também Duncan. –  Era agradável pensar que não dormiria com dor na coluna, entretanto antes que desfrutasse do conforto do colchão a campainha tocou, achando que o casal havia esquecido alguma coisa em seu apartamento ela abriu a porta sem hesitar. Quando percebeu pela fresta da abertura três homens de preto, o alerta a fez sair de sua inércia e tentou fechar a porta o mais rápido possível, no entanto um deles barrou a ação com uma mão. Usando toda força tentava com esforço fechar a entrada jogando seu corpo contra a porta, vendo o homem de preto do outro lado seus olhos buscaram algum resquício de piedade nos olhos de seu antagonista, o que não encontrou. Somente uma fria determinação. O solavanco que a porta recebeu do lado oposto a jogou para trás batendo de costas na parede, os desconhecidos entraram no apartamento, sob a ação da adrenalina, a experiência lhe disse para não reagir diante o assalto, as estatísticas mostravam que mesmo colaborando as chances de sair viva eram mínimas, mas maiores do que se bancasse a valente. – Levem o que quiserem, só não me machuquem por favor. – Com os braços para trás um quarto homem saiu dentre os outros três, diferente deles que top_dollarvestiam ternos com gravatas, óculos de sol e cabelos raspados este trajava apenas uma camiseta negra por baixo de um alinhado colete igualmente preto, luvas de couro combinando com o restante das roupas em trevas, assim como os sapatos bem lustrados. Seus cabelos longos, lisos da cor da noite ultrapassavam os ombros e o cuidado impecável que tinha com este último era notável. Seu rosto delgado e sério era ameaçador. Ele se agachou nos próprios calcanhares, de frente para ela. – Acha que somos ladrões? Somos seu pior pesadelo!

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