Diário da Cidade. #01

Relatos sobrenaturais, ou lendas urbanas, tudo o que concede ao desconhecido sempre causa interesse, se tiver então uma pitada de terror melhor ainda. O jornal “Diário da cidade” publicou em março deste ano uma reportagem do jornalista que participou no interior da antiga e abandonada catedral de nossa cidade um dos mais impressionantes rituais de Magia Negra. Diante dos seus olhos, uma moça que estava clinicamente morta há sete dias foi ressuscitada pelo sacerdote da entidade chamada  O Inominado. O  relato do jornalista pode ser conferido abaixo:

“Festa da ressurreição.

Uma  cerimônias foi feita dentro da catedral abandonada.”

catedralUm grupo de pessoas, em meio à densa escuridão do quase esquecido bairro  que circunda a antiga catedral, se mantém apostas  frente a escadaria da entrada, tudo é ainda silêncio. Para se ter uma ideia do clima as casas e apartamentos decrépitos que foram erguidos um por cima dos outros formam aglomerados urbanos de formas t0gq3CTarquitetônicas em desarmonia, projetam sombras e estranhos relevos na arquitetura fantasmagórica do templo. Semelhante a uma torre pontiaguda com um deck no ultimo andar dizem que o monólito negro foi fielmente inspirado em castelos de ficção e terror de algum filme favorito do próprio arquiteto. A quem diga que foi a maior igreja erguida pelo homem. Mas apesar de ser o mais alto prédio da cidade hoje ela está esquecida e completamente abandonada.

catedralDe repente, a pesada porta dupla se abre, do interior da escura catedral surge, uma espécie de missa, ouvem se gritos lamuriantes de mulheres. Como que despertados por esses gritos, os atabaques começam a tocar.

É preciso esperar. Eu, e os demais habitantes não iniciados temos que aguardar de fora o término da cerimônia de adoração ao Inominado, feita no interior do enorme templo e assistida apenas pelos sacerdotes e sacerdotisas desta seita. Logo após, no meio da praça, todos assistiremos à demonstração do poder desta entidade. O Inominado vai ressuscitar uma jovem, clinicamente morta há sete dias.

Chegar até este bairro, e conseguir autorização para presenciar e fotografar a cerimônia, custou me meses de trabalho e dedicação. Estou aqui graças à bondade do chefe da seita, que é também o líder de todos os rituais religiosos do bairro. Consegui convencer esse chefe do meu interesse a tudo que concerne as praticas ocultas, e ele me convidou a assistir à festa da ressurreição. Entregou me aos cuidados de um de seus “filhos” que me explicou cada fase do complexo ritual.

Num instante, os atabaques param de tocar. Cadeiras e bancos são trazidos, e os habitantes reúnem se a frente do pavimento da escadaria como um palco. Entre eles encontram se os familiares da jovem morta, que trouxeram oferendas ao Inominado a fim de que este traga sua filha de volta de seu reino. O lento despertar do reino da morte. As oferendas são: velas brancas e vermelhas, uma anfora com sangue e pele de cada um dos parentes da morta e cabeças de galinha.

Como uma procissão quem estava no interior do templo sai, os músicos dos atabaques são os primeiros e tomaram lugar entre as escadarias com seus instrumentos seguros entre as pernas. Recomeçaram a tocar, mantendo o mesmo ritmo, constituindo um estranho e estimulante fundo musical.

batmanmodels5.6519Agora são as sacerdotisas que chegam, descem totalmente nuas as escadarias do templo,são facilmente reconhecidas pelas inúmeras cicatrizes que ornam sua pele formando símbolos. Tatuagens feitas pela descarnificação ao longo do corpo, elas se enfeitam com braceletes e colares feitos principalmente de ossos, dentes e cabelos humanos. Além de enfeites, esses objetos têm um importante significado ritualístico. Todas trazem na fronte uma profunda queloide (cicatriz) em triangulo invertido dentro de um circulo: sinal que distingue os seguidores do Inominado. Elas se posicionaram a volta das escadas, em pé. Depois, são os sacerdotes, que entram em cena, de dentro da catedral escura trazendo o corpo da jovem morta enrolado num branco lençol imaculado, carregado por quatro deles. No topo da escadaria e envolta desta, foi deixado um espaço livre sobre o qual ninguém pisa. Nesse espaço semi-circular perto da porta o corpo é depositado, e desnudado. 

A jovem não apresenta nenhuma manifestação de vida.  Não respira, não se move. A pele adquiriu uma tonalidade cinza, e apresenta diversas feridas purulentas. Os sacerdotes trazem uma grande cabaça cheia de água, na qual foram mergulhadas diversas plantas. O canto das mulheres recomeça, monocórdico. Lava se o corpo da jovem com a água da cabaça. Ao mesmo tempo, as sacerdotisas libertam se de seus atributos, e começam a massagear o corpo. O lençol é umedecido, e usado por momentos como sudário. O trabalho de massagem dura cerca de duas horas, onde se repetem os mesmos gestos e cantos. Algumas pessoas jogam moedas sobre o lençol. Ninguém fala. Pouco a pouco o corpo retoma sua cor normal, branco rosado, mas permanece sempre inerte.

A certo ponto, o silêncio se faz mais profundo. As sacerdotisas se afastam. Chega o líder da seita, que se ajoelha ao lado da jovem, inclina se sobre seu ouvido, e grita seu nome com todas as forças. “Ele deve chamá la sete vezes”, diz meu guia e companheiro. E, fora esse grito que se repete, nenhum outro ruído afasta o pesado silêncio. Sete vezes, e nada acontece! Um sobressalto percorre a multidão.

Um oitava vez o nome da jovem é gritado pelo feiticeiro. E, então, ela gemeu! Todos nós somos testemunhas: ela gemeu. O atabaques e os cantos se desencadeiam.

Marcando o ponto culminante do rito, um grito de dor, horrível, assustador, lancinante, a moça, que estava clinicamente morta, volta à vida.Acatedral

Imediatamente, a moça é erguida e é retirada para o interior da catedral, viva! As oferendas são levadas consigo. Seus pais choram de alegria mas ela será devolvida a seus entes queridos apenas pela manhã.

No bairro a festa vai continuar durante todo o dia e toda a noite. Todos vão comer, beber, dançar e rir muito, contagiados pela  alegria, um estado de espírito que tudo arrasta à sua passagem. Quando dei por mim a madrugada havia passado e timidamente a catedral era banhada pela escassa luz do amanhecer. O ritual para ressuscitar é apenas uma parte ínfima dos complexos poderes do culto do Inominado. “

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