O Ano do Dragão – EP03 – Refugio nas gaiolas

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Wang não pensou no cansaço que sentia por causa da droga perdendo efeito sobre seu corpo. Sentia apenas o alivio por estar vivo e aquele medo que o acompanharia daqui para frente enquanto estivesse em Hong Kong. O mecha com quem havia lutado deve tê-lo identificado. Se já não tiver feito pode contar com seu bom disfarce e que não era conhecido pelo serviço de inteligência, o que lhe poderia dar uma janela de tempo para que pudesse fugir. Até lá ele sabe que sentirá esse medo. Com o computador destruído não havia nada para levar dali, além de sua pistola taser.

Descendo das escadarias Wang pôs em prática seu protocolo de fuga. Já tinha algumas rotas pré-prontas partindo de seu apartamento. Este ficava em uma área pobre de Hong Kong, mas “habitável” para um chinês. Nada comparável aos arranha-céus com seus neons visíveis apenas através dos óculos shunsharp dos cidadãos ricos da cidade. Precisava ficar distante destas áreas com muita tecnologia de detecção. Estaria seguro no outro extremo nesta metrópole brutalmente desigual. Precisava chegar lá o quanto antes.

***

Perto das docas do porto de Hong Kong, onde containers abarrotados de mercadorias chegavam sem parar, encontra-se o bairro operário de west kowloon. Por fora seus prédios de apartamento eram tão precários quanto o que Wang morava mas por dentro eram bem piores. Haviam dezenas de gaiolas de um metro e meio, infestadas de percevejos e ratos. Circular por esses prédios era uma monotonia de roupas postas para secar, panelas e outros utensílios amontoados, pessoas cansadas e tristes sem nenhuma referência para que alguém encontre uma gaiola em especifico. Em um delas estava sentado um senhor de idade que contemplava o nada até que ele nota a chegada de um rapaz estranho àquele ambiente com aparência cansada.

– Senhor Cheung, sou eu. Disse Wang com a voz fraca e um sorriso no rosto.

– Demorou muito pra me encontrar?

– Não, o senhor sempre foi minha primeira opção de abrigo. O caminho estava bem claro aqui ó. Wang apontou a própria cabeça.

– Que privilégio, seus colegas até na hora da fuga evitam este lugar. O conforto acima de tudo. Completou ironicamente.

– Tem lugar pra mim?

– Claro que tem! Não é comum ter agentes fujões em Hong Kong. Eu vou providenciar uma gaiola perto da minha e você vai poder descansar. Tomou aquela porcaria do kit?

– Como você sabe?

– Já usei algumas vezes. Que tipo de alucinações você teve? Encontrou um dedo a mais na mão ou viu animais estranhos? Perguntou curioso e zombeteiro.

– Vi um monte de coisas, até a mim mesmo deitado na cama. Mas nenhuma delas me arrebentou de porrada.

– A realidade é quase sempre pior, por isso dormir é tão bom.

– Olha, eu não sei quanto tempo precisar dormir, até essa coisa sair do meu corpo, ok?!

– Fique o tempo que precisar, pela minha experiencia vai ficar um dia inteiro ai dentro apagado. Entra logo ali que quando acordar conversaremos.

Em menos de 5 minutos Wang apagou completamente. Enquanto isso Cheung já estava entrando em contato com Pequim com um comunicador criptografado.

– Sim, ele está vivo e bem.

***

Na delegacia de polícia de Hong Kong, o tenente Hao estava dividido entre seguir a pista do pacote e perseguir o agente que o enviou. Arriscaria perder o pacote de vista para interrogar um agente que não sabe de nada ou seguiria decifrando um arquivo com alto grau de criptografia sem ter certeza se teria tempo de pegar o agente.

– Eu não consideraria decifrar o arquivo, tenente. É muito fechado para nós, se tivéssemos acesso a computadores japoneses ou estadunidenses… talvez… quem sabe. Disse ressabiado o assistente de Hao.

– Mas que merda, então vou ter de pegar aquele… aquele. Nem sabemos que ele é… Vai lá pegar a gravação do meu falecido mecha e achar o cara.

– Sim senhor.

– Ah e me prepara um novo também!

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