Breve relato da última existência na Terra

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Nádia estava sentada olhando para o horizonte em meio a todo o caos que tomara conta do mundo. Em todo lugar pessoas buscavam abrigo inutilmente para o que estava por vir. Imaginava toda a correria e desespero de famílias unidas buscando lugar em alguma nave rumo à Marte ou a alguma lua de Júpiter ou Saturno. Pensava também imaginava os solitários conectados que buscavam informações que lhe acalmassem e que mesmo sabendo do inevitável, recusavam-se a sair de suas poltronas e consoles. Sentiu pena em imaginar o que fariam quando a energia acabasse.

As suas presunções não estavam erradas. Na verdade a situação era bem pior do que isso. Em meio ao caos, muitos se lançavam às ruas e pavimentos para exercer uma liberdade irrestrita abandonando o último laço de qualquer coesão social que ainda restava naquelas mentes. Voltaram eles todos ao tempo das cavernas onde o ser humano possuía total liberdade e nenhuma segurança. De nada adiantou toda a tecnologia desenvolvida. A situação atual fez a balança da liberdade e segurança, que sempre insistia em pender de um lado para outro, girasse freneticamente. Famílias buscando toda segurança que não podiam ter e andarilhos avulsos que corriam para desfrutar de uma liberdade que não poderiam exercer.

Nádia também estava solitária. Sentada em posição de flor de lótus, sobre uma colina próxima do centro urbano encarava o astro-rei em seus suspiros finais. O sol pulsava já fazia algumas semanas enviando ondas de calor que já haviam destruído algumas cidades inteiras em questão de segundos. Os cientistas não podiam prever nem direção, nem momento, sequer a intensidade da próxima rajada de calor. As informações eram desencontradas, o que deixava os conectados em polvorosa, mas havia o consenso em relação a gravidade da situação.

O sol, o astro-rei, o objeto mais importante para a manutenção de toda a vida e existência na Terra e nas colônias dentro do sistema solar estava entrando em colapso. Aquele evento que nunca preocupava a humanidade até então estava eminentemente perto. O momento em que o sol explodiria e passaria de uma estrela do tipo anã amarela para se tornar uma gigante vermelha. As gigantes vermelhas eram bem mais frias que as amarelas, porém não morreremos de frio, mas com o calor, pois o diâmetro de nossa estrela ocupará toda a órbita dos planetas rochosos.

Aqueles que correm para fugirem em busca de abrigo em alguma lua orbitante de Júpiter ou Saturno querem acreditar que estarão seguros nessas colônias, se agarram com todas as forças nesta mínima possibilidade. Contudo sabem que essas colônias serão devastadas pela radiação que emanará desta explosão. Seus habitantes sabem perfeitamente o destino lhes aguardava.

Nádia escolheu um final diferente para sua existência. Preferiu colocar um par de óculos de lentes douradas especiais e preferiu encarar a estrela prestes a entrar em colapso. “Trata-se de um evento histórico importante”, pensou ironicamente e continuou, “seria interessante observar atentamente para relatar tudo”. Em seguida ficou amarga, em pensar que não existiríamos mais. Ficou aliviada por nunca ter sido mãe e remexeu várias decisões de sua vida, mas afastou esses pensamentos afirmando a si mesma que são inúteis numa hora dessas. Questionou-se, “o que seria útil numa hora dessas?”

“Pensar no passado era o que restava para quem não poderia mais pensar no futuro. Como sou historiadora não me falta material mental para refletir”. Alegrou-se brevemente. “Mas a história serve para refletir sobre o que faremos no futuro e…”

Seu raciocínio foi interrompido por um estrondo e uma luz que durou pouco mais que segundos. Se não fossem os óculos estaria cega. Uma região habitada a quase perder de vista ardia em chamas e radiação. O calor aumentara e podia observar o sol pulsar para os lados como se empurrando alguém que estivesse ao seu lado lhe incomodando.
“Está chegando, finalmente”.

Ao contrário do que havia visto em filmes de fim do mundo não havia lugar para niilismo sóbrio. Nem para ela que estava apenas contemplando o sol pela última vez em toda a história da humanidade. Não havia escatologia que nos preparasse para o que se iniciara, nem haveria um crepúsculo para a coruja de minerva e ela se sentia impotente pela última vez.

Pôde ver o astro-rei aumentar de tamanho rapidamente e sentir as suas lentes derreterem em seu rosto antes de ficar completamente cega. O calor tomou conta se seu corpo, mas em seguida não sentiu mais nada. Estranhamente sentiu-se como no fundo do oceano quando mergulhara em sua juventude, mas sem o aperto da roupa de mergulho. Buscou olhar para os lados e raciocinar mas não conseguiu e então a última existência chegava ao fim.

Fim

#Wilbur.D

(atualizado dia 15/09/2015)

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