A Carta

Abandoned_Cemetery-2460x1639O choro de dezenas de crianças, atormentando minha cabeça, bebês, fetos, pedaços liquidificados, agregados infelizes de sangue e cal, como diria o poeta Augusto dos Anjos. Imagine. Bracinhos saindo da terra, eu devia ter desconfiado que este terreno estava amaldiçoado, estava tão barato! Como eu saberia que era um cemitério clandestino de fetos abortados e natimortos. Mandei passar a retro-escavadeira e vi com os próprios olhos os ossinhos delicados vindo a tona, sendo destroçados pela máquina potente. Fizemos isto de noite pois se alguém soubesse do cemitério, a prefeitura iria exigir laudos e laudos, e estes malditos arqueólogos que atrasam nossas obras. Minha empreitera não tinha tempo e nem capital para dispor em pausas desnecessárias. Colocamos os ossos, crânios dentro de tonéis, esmigalhamos em máquinas de amassar sucata. Logo após derretemos e fundimos, fazendo usinagem de peças, ferro e ossos de crianças. Não sabia que o inferno existia e que ele era na própria Terra. As alminhas tão tenras se transformaram em punição kármica, hoje eu não durmo, eu não como, eu sou um trapo humano, pois estes pragas me infernizam sem parar, elas falaram que se eu me enforcasse poderia ser perdoado do crime de não ter dado um enterro decente para elas. Quero dizer aos meus amigos e minha mulher que os amo, mas não posso mais aguentar o tormento, por isso decidi seguir o conselho das crianças, desculpe se magoei alguém, adeus.

#CiprianoSilveira

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