A Luz da Podridão

Não sei bem quando começaram as vozes em minha mente, mas tenho certeza que foi após minha pesquisa sobre magia e alquimia na idade média. Historiador dedicado, apaixonado mas extremamente cético, nunca desrespeitei os vultos que através de minhas leituras se solidificavam em imagens mentais. Estudei o Egito Antigo, Thot e Hermes Trismegisto, o hermetismo árabe e as heresias cristãs e islâmicas medievais. Com a herança que recebi de meus pais singrei a velha Europa buscando livros, documentos e qualquer tipo de fontes para minha pesquisa. Em uma livraria centenária e obscura numa ruela de Viena achei uma suposta cópia, segundo o livreiro, de uma obra do século XV, o nome era Ignis Nox, fogo fátuo.

O relato fantástico do livreiro deixou-me curioso, mas cada vez mais cético, disse que a única cópia que sobrou era esta e que todas as outras foram queimadas pelos inquisidores, ficando apenas um original na misteriosa Biblioteca do Vaticano. Era um livro secreto e um dos que encabeçavam o índex de livros proibidos pela Santa Inquisição.Ignis Nox, como nunca ouvi falar? Mesmo cheirando a charlatanismo, a engodo, paguei o preço exorbitante de 5.000 euros pela obra, que aparentemente era mesmo do século XV ou XVI.

Escrito em um latim sujo e complicado, mal sabia o que estava comprando. Na outra manhã parti de Viena e voltei ao Brasil. Como especialista em livros medievais redigidos por copistas, pude confirmar a autenticidade da obra que foi escrita por um homem chamado Ignacius, um místico que viveu na região do norte de Florença. O livro contava a história de um grupo de camponeses que renegaram o fogo dos céus e cultuavam “o fogo da noite da podridão”. Em um pântano e nos cemitérios eles aspiravam “a luz da podridão” que eu julgava ser o fenômeno do fogo-fátuo, um processo químico de gases que geram luz. O próprio nome Ignis Nox se traduz do latim como fogo-fátuo.

Mas o latim deste livro era muito estranho e as imagens incrivelmente bizarras. Deuses que eu nunca havia conhecido eram invocados e outros eram cultuados para que nunca voltassem para o planeta Terra: Mardok, Estragelog e Suray povoavam as páginas e eu por razões de conhecimento antropológico e histórico resolvi reproduzir certos cânticos e rituais. Segui tudo a risca e em um cemitério aspirei o gás luminoso de um raro fogo-fátuo dizendo as palavras corretas.

Quem dera que eu não tivesse folhado aquelas malditas páginas. Reflito sobre isso olhando pensativo pela janela gradeada de meu quarto do Hospital Psiquiátrico da Universidade.

#CiprianoSilveira

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